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Questões narcisistas em famílias abusivas

Quando se fala de família normal ou funcional, imaginamos um grupo formado pelos pais ou qualquer outro adulto que, independentemente do grau de parentesco, gênero ou orientação sexual, é  responsável por cuidar de seus filhos, proporcionando a estes segurança, proteção, nutrição, educação, limites e, principalmente, afeto. Por conta disso, a família e os pais têm um papel muitas vezes contextualizado como sagrado em nossa sociedade, predominantemente judaico-cristã, gerando inúmeras expectativas em relação aos papeis tanto dos pais como dos filhos. Acontece que, igualmente ao resto da humanidade, os pais ou qualquer pessoa que cumpra com essa função, são humanos e passíveis de erros, que de alguma forma, geram sofrimentos aos seus filhos, mas nem sempre intencional.

Agora, numa família abusiva ou narcisista, ou ainda disfuncional, a questão é um pouco diferente, por envolver uma questão patológica de um ou ambos genitores. Antes de falar de algumas características de pais narcisistas ou famílias abusivas, gostaria de deixar claro que o objetivo desse post é informativo, no sentido de apresentar o quanto uma condição patológica pode interferir de maneira negativa nas relações familiares. Vale lembrar que nem sempre uma relação conflituosa entre pais e filhos se configura numa relação abusiva, com bases narcisistas.

Para falar de narcisismo, termo extraído da mitologia grega, apresento o mito de Narciso. Segundo o mito, Narciso era um jovem extremamente belo, de forma a despertar as paixões das ninfas, as quais ele rejeitava por conta de seu orgulho e arrogância. Uma de suas pretendentes, a ninfa Eco, diante da dor da rejeição, suplicou aos deuses que impusesse a Narciso a dor de não obter seu objeto de amor. Dito e feito! Quando o jovem viu sua imagem refletida na água de um pequeno lago, se apaixonou perdidamente, mas sem conseguir se tocar ou beijar, pois sua imagem se dissipava na água ao toca-la. Dessa forma, Narciso permaneceu a beira do lago, louco de amor por sua própria imagem, sem dormir ou se alimentar até morrer e ser transformado numa flor que recebeu seu nome.

Psicologicamente, narcisismo refere-se a um transtorno de personalidade onde a pessoa apresenta uma fantasia e atitude de grandeza em relação à sua importância, necessidade de admiração, falta de empatia, fantasias (de poder, beleza, brilho), comportamento abusivo e explorador nas relações interpessoais, inveja, arrogância, entre outras características. Ou seja, trata-se de um sujeito voltado para si mesmo. De acordo com Jung, existem 3 tipos de narcisismo: o primeiro refere-se ao "complexo do Self", onde o indivíduo acredita ser o próprio Deus; o segundo refere-se a uma identificação com a persona (máscara que a pessoa usa para se relacionar com a sociedade, a grosso modo); o terceiro tipo está relacionada a sombra, onde tudo que o indivíduo nega ou não aceita em si, projeta no outro e, em contra partida, tem em si uma projeção superficial de perfeição que não reconhece em si mesmo ou em lugar algum, levando-o a procura por isolamento.

Mas quais são as características de uma família narcisista? Seguem algumas características:
1. Presença constante de ameaça e chantagem emocional e vitimização por parte do dominador, gerando sentimento de culpa em quem sofre abuso;

2. limitação patológica (exagerada) de autonomia, de modo a manter a dinâmica da relação em segredo. Por exemplo, uma família onde um dos genitores tem características narcisistas, procura manter os filhos aprisionados expressando frases do tipo: “Lá fora ninguém presta, só nós é que prestamos”;

3. Humilhação, competição e inveja: nessa relação abusiva, p. ex., uma mãe narcisista tende a competir com a filha e usa de agressões físicas e verbais (presentes em todo tipo de relação abusiva), ocasionando neste um sentimento de baixa autoestima;

4. Altos e baixos na relação devido a baixa tolerância a frustrações e contrariedades do ente familiar narcisista;

5. Contraste entre a relação familiar e social: são ótimos para os de fora, clima tenso e agressivo em casa.

6. Sentimento de dívida moral em relação aos pais ao invés de gratidão, devido constantes cobranças destes.

A dificuldade em sair de uma relação abusiva, está na dificuldade em romper carência emocional e afetiva que, inicialmente, ocorre com a melhora da autoestima. Dessa forma, a psicoterapia pode ajudar o indivíduo a encontrar suas bases para elevar sua autoestima e construir uma estrutura emocional na qual consiga enfrentar e estabelecer os limites necessários em suas relações.

Vale ressaltar que a relação familiar é uma construção com bases no afeto e comunicação, onde discordar, não gostar de certas atitudes do familiar e estabelecer limites, além de terem um papel importante e saudável nessa construção, de maneira alguma significa falta de amor. 

Um abraço a todos!

 

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